
Em 15 de novembro de 1889, o Marechal Deodoro da Fonseca proclamou a República no Brasil. A população soube da ocasião gradativamente, já que não pôde participar. A República nasceu de cima para baixo, longe das ruas e distante da vontade popular.
Mais de 135 anos depois, ainda enfrentamos as mesmas contradições: a distância entre o ideal republicano e a prática autoritária, entre a promessa de cidadania e a perpetuação de exclusões e violências.
Os livros da Tinta-da-China Brasil reunidos nesta lista falam exatamente sobre esse Brasil de descompassos. Da crônica à não ficção, os títulos propõem uma reflexão sobre a República que atravessa passado e presente, com análises críticas ao modelo que temos hoje e aquele que ainda precisamos construir.
Confira:
A lei da bala, do boi e da Bíblia, de Adriane Sanctis de Brito, Luciana Silva Reis, Ana Silva Rosa e Mariana Celano de Souza Amaral

Em meio a um cenário internacional de erosão democrática, quatro pesquisadoras do Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo (LAUT) se propõem a investigar como se construiu, nas últimas décadas, o discurso jurídico de grupos conservadores e reacionários no Brasil.
Entre a bala, o boi e a Bíblia, os temas em debate podem variar, do Estatuto do Desarmamento à descriminalização do aborto, passando pela tese do marco temporal. O que se mantém, entretanto, é a estratégia BBB de usar a linguagem política e jurídica, especialmente noções associadas a pautas progressistas — como garantia de direitos, laicidade, separação de poderes e vontade popular —, em sentidos antipluralistas e fragmentados, que favorecem sua própria agenda política. É assim que, nos espaços institucionais do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, as palavras da Constituição podem acabar dizendo o contrário do que deveriam dizer. Protagonistas das forças de segurança, do ruralismo ou do campo religioso são convertidos em bastiões do desenvolvimento, vítimas de um mundo em desordem, enquanto grupos progressistas se tornam inimigos a combater, autores de um discurso ideológico e avesso ao progresso.
Depois de O caminho da autocracia, este é o segundo livro da coleção LAUT na Tinta-da-China Brasil, e conta com prefácio de uma das principais vozes no combate ao autoritarismo na Europa, Renáta Uitz. Com essa pesquisa abrangente, Adriane Sanctis de Brito, Luciana Silva Reis, Ana Silva Rosa e Mariana Celano de Souza Amaral nos ajudam a entender como podemos construir resiliência constitucional diante de forças antidemocráticas.
“Os resultados desta pesquisa contribuem com descobertas essenciais para a compreensão de práticas iliberais e autocráticas no cerne das instituições constitucionais. Um livro necessário.” — do prefácio de Renáta Uitz
Diante do fascismo: crônicas de um país à beira do abismo, de Paulo Roberto Pires

O jornalista e editor Paulo Roberto Pires observa nestas 34 crônicas publicadas em sua coluna nas revistas Época e Quatro Cinco Um a ascensão de Bolsonaro à Presidência da República e a implantação de sua política de perseguição às artes, à universidade, ao jornalismo e aos direitos humanos. A partir de episódios do dia a dia do governo, como a nomeação de Regina Duarte ("a noivinha do Brasil fascista") para a Secretaria Especial de Cultura, Pires mostra como a autoproclamada isenção de intelectuais, jornalistas, políticos e outras figuras do debate público ajudou na instauração de um fascismo à brasileira.
Despotismo tropical, de Luiz Felipe de Alencastro, organização de Rodrigo Bonciani

No calor do momento e na distância do exílio, uma correspondente desconhecida deu notícias da ditadura brasileira na França. Em 1976, o Le Monde Diplomatique começou a publicar sólidos artigos de uma tal Julia Juruna, que tratavam de assuntos como as raízes violentas e o aparato repressivo do nosso país, a participação dos Estados Unidos no Golpe de 1964 e a dependência econômica em relação ao mercado internacional. Quem estava por trás do pseudônimo indígena era o jovem Luiz Felipe de Alencastro, que, em temporada de estudos e pesquisa na França, se tornaria um dos mais importantes historiadores brasileiros. Reunidos pela primeira vez em livro, com organização do historiador Rodrigo Bonciani, os artigos retomam os acontecimentos-chave da abertura política e do processo de redemocratização. Com os olhos no passado colonial e no presente da ditadura (1964-85), Alencastro projeta o leitor para os tempos atuais. Em sua apresentação, Bonciani indaga se, diante da violência de Estado que persiste até hoje, a nossa jovem democracia não passaria de um “enxerto” no antigo conhecido “despotismo tropical”.
Sobre a Tinta-da-China Brasil
É uma editora de livros independente, sediada em São Paulo, gerida desde 2022 pela Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos. Sua missão é a difusão da cultura do livro.
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