
Na madrugada dessa sexta-feira (21 de novembro de 2025) a dinamarquesa, Victoria Kjaer (22 anos), entregou a coroa do Miss Universe 2025 para a representante do México, Fátima Bosch (25 anos), vencedora da 74º edição do concurso que aconteceu em Bangkok, na Tailândia.
A Miss Universo México se destacou internacionalmente após o dia 4 de novembro quando, durante as preliminares do concurso, na cerimônia de entrega das faixas, Nawat Itsaragrisil, diretor do evento, insultou a participante publicamente chamando-a de “estúpida” por supostamente não publicar conteúdo sobre a Tailândia em suas redes sociais. Na transmissão ao vivo é visível que ao tentar se justificar a Miss México é interrompida por Nawat que diz “Eu não te dei a oportunidade de falar. Por favor, seja educada…”, ao ver que Fátima não seria silenciada, o diretor acionou os seguranças e causou incômodo e indignação em todas as misses presentes que se levantam de imediato.
Em seguida, na tentativa de conter as mulheres, Nawat as advertiu afirmando que quem deixasse a sala não teria um futuro no concurso. As mulheres na sala não hesitaram em deixar o auditório em apoio a Miss México, incluindo a Miss Universo 2024, Victoria Kjær Theilvig.
As participantes do Miss Universo agiram com sororidade ao ver Fátima não apenas como uma concorrente. Aquelas mulheres viram não uma rival, mas uma semelhante.
Essa cena foi repostada não só nas redes sociais, mas nos principais canais de notícia. A ação se tornou digna de simbolizar a luta contra o machismo, o autoritarismo e o abuso em concursos femininos. Um enredo digno de uma sequência do filme Miss SimpAitia.
Ao falar com a imprensa sobre o ocorrido, a Miss México declarou: “O mundo precisa ver isso porque somos mulheres empoderadas e esta é uma plataforma para as nossas vozes. Ninguém pode nos silenciar, e ninguém vai nos silenciar.”, Fátima ainda complementou “Espero que todas as pessoas em casa, todas as mulheres, não importa se têm um grande sonho, se têm uma coroa, se algo lhes tira a dignidade, elas têm que ir embora”.
Panisa Aeomocha, repórter da BBC News Tailândia, relatou que no país se discutia na internet se o termo usado em uma das frases de Nawat foi “dumb” ou “damage”, em português: “burra” ou “danosa”.
Após receber críticas por sua conduta desrespeitosa, o diretor tailandês pediu desculpas numa transmissão feita diante das misses dizendo que aquela não era sua intenção. Nawat disse que é humano, teve que lidar com muita pressão e às vezes não consegue se controlar. Depois fez uma pergunta para a Miss México: “Você está feliz?”
A organização do concurso o afastou dos eventos restantes e enviou o CEO para supervisionar o protocolo de conduta. O presidente e coproprietário do Miss Universo México, Raúl Rocha, disse estar indignado e repudiar o que ocorreu, em suas palavras “Nawat esqueceu o que significa ser um verdadeiro anfitrião” e que era responsabilidade dele apoiar a todas as participantes para proporcionar uma experiência única na vida com bondade e cordialidade.
Que diferença pode fazer o termo utilizado quando um homem chama os seguranças para uma mulher que só está tentando falar?
Fátima possui formação internacional em design de moda, experiência em concursos de beleza, além disso é modelo, criadora de conteúdo com mais de 990 mil seguidores no Instagram e 690 mil no TikTok e embaixadora de temas ligados ao empoderamento feminino.
A primeira mulher de Tabasco a representar seu país na disputa global e a quarta mexicana a levar o título de Miss Universo.
No entanto, sua história também apresentou percalços. Em julho de 2025 Fátima Bosh, até então Miss Universe Tabasco, contou que sofria bullying durante a infância, sendo considerada a mais burra da sala e que os outros a evitavam e rejeitavam devido ao TDAH, hiperatividade e dislexia. Chegando ao ponto dela ter medo de sair durante o recreio, se considerando invisível e comendo seu lanche no banheiro.
Na noite de sua coroação como representante do seu país, após o anúncio de sua vitória, apenas quatro candidatas a parabenizaram e abraçaram (Miss Universo Tlaxcala, Yucatán, Veracruz e Tamaulipas), enquanto todas as outras comemoraram entre si. A atitude foi vista pela mídia e por muitas personalidades famosas como desrespeitosa e infantil, de más perdedoras.
Hoje o cenário foi completamente diferente. Quando a senhorita Bosch foi coroada todas as misses no palco correram para abraçá-la, respeitando o resultado por mais que esse não as beneficiassem e priorizando a cordialidade acima de qualquer desavença em relação ao processo de julgamento.
A mídia, assim como o público, noticiou o resultado do concurso mais como uma consequência da polêmica entre a jovem e o diretor executivo do evento do que como fruto do que lhe foi apresentado na noite final, como uma equiparação do dano causado. Outros classificam a vitória como uma cortesia advinda do patrocínio mexicano e justificaram o segundo lugar ser conferido a Miss Tailândia em razão do país sediar o evento.
No fim da coletiva de imprensa do Miss Universo Raúl Rocha, empresário mexicano e sócio do MUO (Miss Universe Organization), foi confrontado por uma jornalista que o questionou a respeito das alegações feitas pelo músico Omar Harfouch ex-jurado do concurso que, horas antes do resultado do concurso, alegou, através de seu perfil no Instagram, que renunciou o seu cargo no júri porque a coroação foi uma fraude, motivada por negócios entre Raúl e o pai de Fátima, e que tudo seria exposto em maio de 2026 na HBO. Compartilhou também uma foto em que supostamente Fátima Bosch está abraçada com Raúl Rocha.
Indignado, o presidente negou a questão e usou o microfone para ler mensagens onde supostamente teria dispensado o músico e até mesmo permitiu que repórteres vissem por si mesmos algumas mensagens. Raúl não só apontou Omar como um oportunista que buscou uns minutos de fama, mas legitimou a vitória da miss Fátima Bosch. O ex-jogador de futebol profissional Claude Makelele também desistiu de ser juiz, alegando "motivos pessoais imprevistos" em um comunicado nas redes sociais. Mas a OMU negou a alegação de Harfouch, afirmando que "nenhum júri improvisado foi criado".
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, afirmou que o resultado do concurso Miss Universo sempre gera questionamentos, mas fez questão de parabenizar a vencedora vinda do estado de Tabasco e disse ter se alegrado ao ver Fátima levantar a voz diante de uma injustiça. Declarou: “É um exemplo para todas e todos os mexicanos, e para as mulheres… Nós mulheres ficamos mais bonitas quando falamos e quando participamos”.
Tanto no X (Twitter), quanto em vídeos no TikTok ou comentários no Instagram vemos opiniões parecidas com as descritas a seguir:
Costa do Marfim é a ganhadora moral do Miss Universo 2025. Roubaram sua coroa.
Como Costa do Marfim ficou em quarto lugar? Ela deu a melhor resposta, isso não está certo.
Tô esperando ele dizer que o ranking do top 5 foi um engano… Costa do Marfim e Filipinas mereciam mais.
É inegável que a Miss Cote D' Ivoire ou Costa do Marfim, apresentou respostas eloquentes e perspicazes, chamando o público como uma verdadeira líder. Até mesmo as comentaristas da transmissão ao vivo feita pelo R7 e RecordPlus concordaram que as respostas da candidata foram as melhores da noite. Ainda assim, ela assumiu o quarto lugar no top 5. Porquê? Nunca teremos certeza.
Vimos a sua graça, confiança e delicadeza reluzindo na passarela, seja no desfile de roupa de banho, traje tradicional ou de gala. Sua beleza pode ser facilmente constatada por qualquer um que a veja.
Olivia Yacé (27 anos), fala três idiomas, é embaixadora do turismo de seu país, modelo, tem uma fundação de direitos educacionais das mulheres com o seu nome e experiência no mundo dos concursos, como vencedora do Miss Mundo 2022.
Olivia era a aposta de muitos para o título de Miss Universo. Para se preparar para o evento ela foi para a Indonésia treinar o catwalk, fez os vestidos nas Filipinas e no Vietnã, foi à Tailândia por uma semana para um ensaio de fotos tailandês e para conhecer o lugar e a cultura, buscando em tudo a excelência.
Se tivesse ganhado iria levar a primeira coroa para Costa do Marfim e seria a 6° mulher negra a vencer o concurso. Miss Yacé afirma ter trocado mensagens com outras participantes antes mesmo do confinamento para desenvolver um laço real com elas.
Em entrevista exclusiva ao canal do YouTube KhaosodEnglish, Pravit Rojanaphruk perguntou a Olivia como ela lidaria com uma possível derrota sendo uma das favoritas, para isso ela disse: Somos todos competitivos, mas não vamos odiar uns aos outros ou ser indiferentes, porque é um jogo e é assim que as coisas são. E para mim o mais importante é focar em mim mesma, eu sempre digo que há muita competição, cada menina representa orgulhosamente o seu país, mas eu sou minha própria concorrente. Eu foco em ser autêntica e dar o melhor que eu posso para mim, para o meu país, para o meu continente — África.
Espero ganhar a coroa. Eu acho que tenho tudo o que é preciso para ganhar a coroa, mas se eu não ganhar a coroa eu sei que daria cem por cento, eu daria o meu coração e não me arrependeria de nada.”
Ao sortear um envelope, ela escolheu a jurada número 6 que guardava a pergunta: “A educação hoje foca muito em conhecimento, mas nem sempre em habilidades emocionais. Quais habilidades emocionais você acha que devem ser ensinadas a todas as crianças na escola e por quê?” Ela foi sábia a responder:
Como uma mulher que tem uma fundação sobre educação, eu acho importante que ensinemos crianças a se amarem, por isso o meu slogan é, assuma a sua identidade. Porque se você se ama, se você tiver confiança, você vem para o mundo e você brilha. E eu encorajo a todos os jovens, mulheres e homens a se colocarem em primeiro lugar, ser quem querem ser e brilharem.
Hoje os requisitos para o Miss Universe foram reformulados buscando alcançar a sociedade, não há mais medidas como barreiras e já não importa se a mulher é ou não mãe. Em resposta a isso, em 2025, pela primeira vez, duas mulheres acima dos 40 anos participaram do concurso, Miss Bonaire - Nicole Peiliker e Miss Ruanda - Solange Keita (ambas com 42 anos).Também a primeira candidata transgênero, Miss Vietnã, Huong Giang Nguyen (33 anos). Ademais, na 74º edição do concurso alguns países estrearam, sendo eles: Palestina, Cabo Verde, Ruanda e Mayotte e, pela primeira vez, tivemos uma Miss América Latina.
Além de estética, uma miss precisa de voz ativa e oratória, mas isso é o bastante para justificar a exposição de mulheres e dos seus corpos ao julgamento de jurados? Os concursos têm promovido a autoestima e a beleza da diversidade das mulheres ou apenas pressionando-as e usando a falsa sensação de inclusão para as convencer a gerar entretenimento?
Reprodução/redes sociais
Quanto recebe uma miss? Quando criança nunca pensei sobre isso, achava que tudo se resumia a coroa, faixa, flores, prestígio e oportunidades como entrevistas e viagens para conhecer a cultura do resto do mundo. Mas tenho que dizer que a motivação para tantas mulheres se inscreverem no concurso é um pouco maior… Ao menos num concurso como esse.
Em 2020, Elaine Cristina, CEO do Concurso Belezas do Brasil disse para o projeto Miss na Mídia no Instagram (@missnamidia) que “A mulher mudou e os concursos precisam acompanhar as mudanças da mulher, Isso aconteceu na moda também. [...] Beleza é extremamente subjetiva".
Embora o prêmio oficial do Miss Universo 2025 ainda não tenha sido divulgado, o Metro One News afirma que os valores de 2024 sugerem uma cifra na casa dos milhões. No ano passado o prêmio em dinheiro foi de cinquenta mil dólares por ano, ou seja duzentos e setenta mil cento e oitenta reais, para cobrir suas obrigações como embaixadora global, o aluguel de um apartamento em uma grande cidade, viagens e eventos totalmente financiados, a coroa (a última foi avaliada em mais de US$ 5 milhões) e, por fim, visibilidade internacional.
Mas, para algumas mulheres, o prêmio significa muito mais.
Maria Ahtisa Manalo (28 anos), Miss Universo Filipinas,trabalha na organização Alon Akademie oferecendo oportunidades para jovens de baixa renda, ela já participou três vezes do concurso MU e ontem ficou em 3º lugar, foi a primeira vez desde 2021 que Filipinas vai até o Top 5.
Ao responder a pergunta feita pela jurada número 7 “Como embaixadora ou cidadã global qual vai ser a sua contribuição para a humanidade?" A Miss Filipinas inspirou a todos ao responder:
Eu quero ser esperança para as pessoas. Eu venho de origem muito humilde, comecei nos concursos aos 10 anos e tirei a minha família da pobreza. Se tem uma coisa que eu quero mostrar ao universo é que eu estou aqui agora, Sou Miss Universo porque eu consegui sair de qualquer situação difícil porque fui trabalhadora, persistente e lutei pelo que queria.
Ahtisa impressionou a todos com o seu discurso e a sua história de vida, a forma com que criou suas próprias oportunidades. Após o resultado declarou a ABC-CBN News “Estou feliz e satisfeita. Fiz o meu melhor. É tudo o que posso fazer” e ao ser questionada sobre o futuro mostrou-se aberta a novas oportunidades, visto que este é seu último concurso de beleza. "Há mais coisas na vida do que concursos de beleza".
Vivemos em uma dicotomia, um mundo artificial onde pesquisas apontam que candidatos bonitos são mais propensos a serem eleitos, porém o uso de cosméticos para disfarçar “imperfeições” é considerado vergonhoso. A beleza é mais apreciada do que o real bem-estar ou a felicidade, mas o incentivo à vaidade é detestável.

Por que concursos de beleza ainda existem?
Se você ganhar o título de Miss Universo essa noite, como você usaria a sua plataforma para empoderar jovens meninas? Para essa pergunta a Miss Costa do Marfim respondeu:
Eu gostaria de ser o rosto de uma nova geração que mistura cultura, moderno e tradicional. Eu quero ser o rosto de uma nova era de mulheres que são ousadas, que são líderes, que não pedem desculpa por ser quem são. Se eu for Miss Universo quero um modelo para todas as meninas e deixá-las saber que você também pode fazer isso, ocupar aquelas salas onde você pensa que não pertence. Brilhe e certifique-se de assumir sua identidade.
A beleza é subjetiva. Você pode achar ou não uma mulher bonita, mas não há como desmerecer a intenção e a motivação dessas mulheres. Ainda que os concursos carreguem problemáticas, as faixas e coroas ainda são parte dos sonhos de muitas mulheres e elas podem ir atrás deles se assim desejarem. Contanto que isso não custe a saúde física ou mental delas.
Concursos de beleza fazem parte da nossa cultura, surgiram no Brasil nos anos 1950 sendo a brasileira Martha Rocha (1932-2020), a primeira Miss Brasil eleita em 1954 para o Miss Universo e representa mais do que apenas beldades desfilando. Eles são compostos por mulheres com senso de justiça, projetos de ajuda humanitária, qualificações académicas e profissionais, histórias e aspirações reais que fazem uma preparação intensa para representar o seu povo.
Porque os concursos de beleza ainda existem? Uma resposta rasa seria: porque eles ainda geram lucro e movimentam o mercado. No entanto, mais do que superficialidades, concursos ainda potencializam vozes, estimulam a criatividade, recordam cultura e podem engajar e inspirar comunidades.
Ao mencionar mulheres capazes e proativas que canalizaram suas forças em prol do Miss Universo 2025 é digno mencionar Gabrielle Henry.
A Miss Jamaica, Gabrielle Henry (29 anos), médica oftalmologista e fundadora da organização “See Me Foundation” para inclusão de pessoas com deficiência visual, foi hospitalizada no dia anterior a grande final após cair do palco principal durante um desfile de vestidos de gala, da profundidade de um metro e meio, conforme mensurado pelo colunista Fábio Luís de Paula. Nesta edição o palco foi projetado em formato de auréola, com um buraco no meio e a Miss perdeu o equilíbrio quando iria concluir a sua volta e teve de ser retirada em uma maca.
Em comunicado, Raúl Rocha disse que não havia sofrido ferimentos graves e que ela foi levada às pressas para o Hospital Paolo Rangsit onde continuam realizando exames para garantir sua plena recuperação. Ela é uma vencedora e esperamos que ela fique melhor em breve!
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